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Mandamos nosso repórter para a estrada em busca do dia a dia e da alma do rock independente brasileiro jovem vindo do Paraná bebendo conhaque num Fiat Uno socado de malas e instrumentos

Por Luis ‘Ramone’ Lopes – @luisrlopes


Umuarama é uma cidade arrumadinha, com aproximadamente 100 mil habitantes, localizada no noroeste paranaense, onde o sol costuma castigar os desprovidos de cabelo. É também conhecida como a capital da amizade e recebe o título de “Mulherama” pela beleza e quantidade de consortes que vivem por lá. No dicionário Tupi, de autoria de Orlando Bordoni, Umuarama significa ‘lugar alto, sítio alto e ensolarado’. Difícil é explicar a história do morto-vivo que apareceu por lá e, principalmente, a réplica da Torre Eiffel, construída na saída da cidade, sentido Paraguai. Mas isso tudo são misérias dentro do que trataremos agora: o rock independente. Representado, e muito bem representado, por Nevilton – Nome de remédio e guitarras viscerais!

O Começo

Conheci o som do Nevilton por meio de um cara, do qual não me recordo o nome, jornalista e amigo de algum dos meninos lá de casa, que uma vez apareceu no apartamento para jogar winning eleven e ouvir Bob Marley junto com a galera da república. Entre um gol e outro, um devaneio e outro e uma cerveja e outra, ele, natural de Francisco Beltrão, no Paraná, comentou sobre uma banda de Umuarama com N que havia aparecido em publicações como a Rolling Stone e a Bravo! com certo destaque. A banda N, de Umuarama, foi parar então no Google, que nos apresentou o site, MySpace e outras mídias por onde o grupo já havia rodado.

Num sábado de julho, quando a alma começava a puxar o resto do corpo para as ruas atrás de agitação e outras indecências, descobri na web que aquela banda de Umuarama se apresentaria em São Paulo, a poucas quadras do lugar que habito em companhia do editor-chefe da revista, Junior Bellé, e do editor de conteúdo, Paulo Marcondes: o apê 80. O passo seguinte foi jogar a ideia na mesa de discussões e o consenso apontou que aquela seria uma noite de rock’n’roll regada à cerveja e outros crimes. O show rolaria na Fun House, uma casa noturna com atendentes lindas e tatuadas, e lá conheceríamos Ton, Fernando e Tiago Lobão, os caras do Nevilton. O primeiro passo para a reportagem que segue.


A reportagem que segue

“Você está com a filmadora, a bateria está aqui e as fitas você encontra no bolso externo da capa. Contamos com você, Ramone”, foram as últimas palavras de Ton lançadas para mim antes do grupo se mandar para o backstage do John Bull Music Hall, na capital paranaense. O set list, que eu tanto esperava para escrever a matéria com mais facilidade, não me foi entregue porque não existia. Tudo que rolou entre Ballet da Vida Irônica e Me Espere Menino Lobo, respectivamente primeira e última música daquela noite, foi na base do “e aí, qual vai ser agora?”. Eu estava com a filmadora apontada para o palco e os olhos fixados no público, atento às reações que dali surgiriam enquanto Ton e Lobão pulavam como dois “putinhos” naquele palco.

Curitiba era a primeira parte da breve turnê, que seguiria ainda por Florianópolis, Alto Piquiri e terminaria em Umuarama. Isso tudo no espaço temporal de uma semana, sendo cada uma das apresentações possuidoras de características e histórias particulares. Em Curitiba, a primeira parada, estávamos diante de um festival com 14 bandas da cena independente que se dividiriam entre sexta e sábado, 24 e 25 de julho, para realizar a 7ª edição do Rock de Inverno. Nevilton estava escalado para ser a 4ª banda da primeira noite, tocando depois de Pão de Hambúrguer, Liquespace e Hotel Avenida. E antes de 3 Hombres, Diedrich & Os Marlenes e Beto Só. Todas extremamente competentes.


Antes do rock comer solto em Curitiba, Ton e sua trupe maluca haviam viajado 564 Km e uns quebrados até o local do show. A viagem começou às 5 horas da manhã, quando acordamos na Neviltonlândia para guardar as guitarras e microfones no Uno que transporta a banda – merecidamente batizado de Átila, o Uno. Nevilton pilotaria o carro até as casas de Lobão, o baixista, e de Fernando, que era o piloto-baterista daquele cabriolé de músicos na maior parte das viagens.

Fernando Livoni, o baterista caipira mais insano do rock paranaense, é o mais tranquilo da banda. Chegado numa cachacinha, em turbinar Passat e outros carros, ele é um pouco mais quieto que os demais, mas tão boa gente quanto. Do trio, ele, que recentemente deixou a banda, era o único integrante com responsabilidades conjugais a cumprir, mas ainda assim encontra tempo para tocar viola. Suas imitações da esposa são inenarráveis e muito contribuíram para desencanar da rotina de asfalto da semana que seguia, principalmente nos trechos Umuarama–Curitiba, Curitiba-Florianópolis e Florianópolis–Umuarama. Além disso, a história de como ele começou a tocar bateria é conveniente, ainda mais se tratando da cena independente.

“Eu mesmo que fiz. O bumbo era um tambor de lata, com uns pedaços de papelão servindo de pele, os pratos eram feitos de gaiolas, a caixa era uma lata de tinta”, contou durante os primeiros quilômetros de sono de Nevilton e Lobão no banco traseiro do Uno. O pai havia lhe oferecido um violão, mas ele não criou identidade com o instrumento. Enquanto conversávamos rolava Screaming Trees e Eddie Vedder no som do carro, ambas indicações desse repórter enxerido e metido a conhecedor de boa música.

À tarde, o trio estava agendado com a Rede Globo do Paraná para gravar duas músicas que seriam exibidas semanas mais tarde num programa voltado para o público jovem daquele estado. O horário estava marcado: 16 horas em Santa Felicidade, o bairro frequentado pelos estômagos mais luxuosos de Curitiba. A TV é uma ótima mídia para uma banda que está dando os seus primeiros passos e o tempo estava contado no relógio dos Neviltons. Pelos nossos cálculos, seriam sete horas e meia de viagem. Se pegássemos a estrada às seis da manhã, chegaríamos em Curitiba entre duas e três da tarde, com sobra para almoçar, beber, e até para encostar o carro e ficar nu na beira da estrada, se fosse o caso. Mas o rock independente é um lance repleto de improvisos e contratempos. Como ossos que furam o pneu e atrasam a viagem, por exemplo.

“Ramone, em 56.405 quilômetros de rock por esse país a fora, essa é a primeira vez na história dessa banda, e também desse carro, que um pneu fura na viagem. Você está com sorte, meu velho!”, explicava Nevilton enquanto passava frio à beira da PR-323 e dava risada da sorte. Por mais que o planejamento permitisse pequenos contratempos durante a viagem, o grupo sabia da correria que aquela sexta-feira ainda reservava. Entre a constatação do furo, a busca por uma borracharia e a troca do pneu pelo step, perdeu-se aproximadamente uma hora. “O lance é torcer pra não furar mais nenhum agora”, dizia Fernando, que ficou incumbido da tarefa devido aos dotes mecânicos que possui.

O almoço daquele dia foi um pacote de bergamotas e mais um salgado gordurento para cada um de nós. Quando Curitiba apareceu no horizonte, estávamos com tempo suficiente para procurar a rua do estúdio onde rolaria a gravação para a TV, encontrá-lo e ainda tomar um cafezinho antes do carro da emissora chegar para iniciar a gravação.


A noite

Tudo pronto no John Bull. O som, as luzes, o palco, alguns músicos, o bar e público. Estava tudo lá quando os meninos de Umuarama ainda deixavam o local das gravações para caçar o Habib’s mais próximo, garantir a janta, e então seguir até a casa do irmão do baixista – que estava viajando, mas deixou o porteiro avisado -, onde rolaria a pernoite daquele dia. Era um apartamento bacana, espaçoso e que aliviaria um pouco o cansaço e os calos da viagem daquele dia. Na TV ficou o registro de A Máscara, de autoria própria, e uma versão de Jorge Maravilha, de Chico Buarque, uma vez que o programa queria mostrar músicas de protesto para falar sobre o papel dos músicos durante o regime de repressão.

O pré-show de Curitiba foi o mais agitado de todos, mas perdia para o de Florianópolis porque na ilha havia champagne e salgadinhos frios para comemorar o lançamento do clipe de Não Me Leve a Mal, dos caras do Aerocirco, os organizadores da noite Catarina. Em Curitiba não havia comida e nem bebida na faixa, mas havia uma movimentação interessante e agitada de músicos pelo salão. Num raio de poucos metros era possível encontrar o Paulo Nadal, voz e guitarra do Mordida, o Oneide, vocalista e guitarrista do Diedrich & Os Marlenes, Beto Só, que além de músico é um jornalista fudido, os meninos do Pão de Hambúrguer, Hotel Avenida e outras bandas bebendo cerveja pelas rodinhas de conversa. No carro, a caminho do show, pairava um mix de tranquilidade com “temos muito a fazer antes do show”, enquanto rolava no som do Átila um trabalho do Cream gravado nos estúdios da BBC de Londres. E a noite começava a cair. Ton, sempre que vai pegar a estrada com os outros Neviltons, costuma perder algumas horas sentado à frente do computador gravando CDs para distribuir nas apresentações. O número de cópias varia bastante de apresentação para apresentação, mas a média fica entre 20 e 50 CDs por noite. Nevilton grava, faz a arte e ajuda a cortar e pintar o encarte. Fernando e Lobão também contribuem com o trabalho, principalmente com os últimos itens mencionados. “Nunca vendemos esses CDs, são material de divulgação e a única coisa que queremos é que a galera escute e passe pros amigos”, conta Nevilton, que completa: “Na cena independente tem que ser assim. É trabalho de pedreiro, Ramone”.

Nevilton é O Cara da banda. Na música desde os 16 anos de idade, hoje com 23, ele é o responsável por escolher o norte a ser seguido. “Eu sei que o Nevilton sou eu, mas sei que não funciona sem os outros caras. Toquei voz e violão por diversas vezes, tive outras bandas e vi muita coisa boa ruir por falta de perspectiva, por insistir em tocar músicas dos outros em vez de tentar fazer um som próprio”, conta o rapaz que dá nome à banda.

Ton é Nevilton, filho de Nevilton, que trabalha como comerciante na região de Umuarama. Nevilton pai, ou Neviltão, conta que foi numa apresentação dos Titãs, ali pelo comecinho da década de 1990. “Os Titãs vieram pra Umuarama e eu lembro que o Ton foi assistir a montagem de palco e passagem de som. Quando ele voltou para casa, me falou que os músicos o haviam convidado para assistir o show e que eu precisaria levá-lo até o clube onde eles se apresentariam”, conta o pai, que hoje é grande incentivador do trio. Neviltão, a princípio, desconfiou da história do filho, mas de tanto insistir acabou levando o garoto para curtir um rock naquela noite. “Lembro que quando chegamos lá havia uma senhora fila para entrar, achei até que era papo furado dele, mas quando me dei conta, um dos Titãs gritou assim: ‘ô polaco, chega aí e traz o seu pai’. Aí entramos e assistimos a tudo bem de perto”, relembra o pai do vocalista. A mãe, que assim como o pai sempre deixa como música tema do celular uma canção da banda, chama-se Marlene e também aposta na ascensão do grupo: “sempre quando eles se inscrevem para algum festival, concurso ou coisa do gênero, eu me coloco a votar e insisto para que todos os meus clientes e funcionários da loja façam o mesmo”. Nos fundos da papelaria onde trabalha, além do estoque e de um pouquinho de bagunça, existe parte da história do trio, que fez e faz os ensaios e as gravações caseiras por lá. E sempre foi assim.
Ensaios

O grupo está acostumado a ensaiar nos fundos de papelarias da cidade; esta que fica na Avenida Presidente Castelo Branco é a segunda no histórico dos caras. O rock’n’roll que sai de lá, abafado pelas caixas com mercadorias de estoque e pelo próprio estoque fora das caixas, segundo Nevilton, é compacto e fudido. Eu acrescentaria: … e pode ser visto no YouTube”.

Nevilton é quem pensa as letras e arranjos das músicas. É ele também quem se encarrega de colocar na internet as primeiras versões gravadas no “estúdio particular” da banda, e produzidas no quarto onde ele costuma hospedar as visitas. Vez ou outra, a papelaria cai fora do processo e entram as artimanhas digitais. Grava-se uma linha digital de baixo, outra de bateria e vai pra web. “Alguns sons que hoje fazem parte do nosso repertório foram gravados antes mesmo do Nevilton existir como banda. Eu era sozinho e tocava numa banda chamada Super Lego, onde o Fer e o Lobão também tocavam, e tínhamos mais dois caras com a gente”, conta o vocalista, que é mais um cara fissurado em conhaque e internet.

A grande rede é uma constante durante as viagens do grupo. Sempre que aparece uma oportunidade, Ton e Lobão correm para a web a fim de agitar a comunidade do Orkut, o Twitter, Facebook, MySpace, site, MSN, e outros. No quartel general do vocalista, fixado na CPU de um dos computadores, existe uma folha com inúmeros lembretes nesse sentido. E a julgar pelo que vi durante o tempo que fiquei por Umuarama, ele segue à risca todos eles. “Independente da profissão, hoje você tem que saber aonde quer chegar. O mercado está cada vez mais acirrado, cada vez mais bandas aparecem, e bandas de qualidade. Se você não vender o seu peixe, vão comprar o peixe do vizinho”, diz o vocalista que é formado em Letras.

Lobão, o seu companheiro de maluquices no palco, é advogado, blogueiro e escreve uma coluna semanal no principal jornal de Umuarama. Juntos, eles possuem um semanário de música, cultura e conversa fiada na rádio universitária do município. O programa recebe o nome de Culturanja (cultura + canja), vai ao ar todas as terças-feiras, com reprises aos sábados e pode ser visto na internet no formato podcast.

Lobão é filho de bancário e por alguns anos também trabalhou atrás do caixa, recebendo boletos, contando notas e preparando malotes. Sobre esse período de sua vida, pode-se dizer que ele quase não sente saudades. “Minha alegria era pegar o salário e comprar vinhos, CDs, roupas, instrumentos e equipamentos para a banda. Se eu continuasse naquilo seria um eterno infeliz de gravata”, ele conta e faz cara feia, encrespando os músculos faciais, de modo que fica fácil acreditar. O baixista era a única alma sexual e fanfarrona da banda, até a recente troca de baterista. Por se tratar do único rapaz solteiro dos três, por onde passa, ele deixa a sua marca. E não foi diferente em Curitiba, mas essa parte da treta fica chato contar aqui. Não pretendo escrever nenhum conto erótico nestas linhas. Mas é no palco que a coisa acontece! Nevilton à esquerda do público, com sua calça verde e seu terno azul marinho da sorte, Fernando mais ao fundo, como se fosse um homicida cheiradão a golpear com um martelo a cabeça de sua vítima. Lobão fica com a outra ponta do tablado e a insanidade rola solta quando os três começam. Da primeira à última música rola “o fino do rock presencial”, um lance absurdo, que chega carregado de peso, técnica apurada, pulos alucinados e boas letras.

Beto Só, o headliner da primeira noite de rock na capital paranaense, não titubeou ao pisar no palco. “Quando eu subi aqui, a primeira coisa que pensei foi ‘tomara que eu consiga fazer um show tão bom quanto o do Nevilton”. Senhor F, jornalista das antigas e um dos principais críticos da cena independente brasileira, ao final da noite salientou: “é um dos melhores shows de toda a cena brasileira”. Mas cada caso é um caso e cada show é um show…




Se em Curitiba grande parte do público estava disposto a ouvir a novidade, em Florianópolis o jogo rolava fora de casa. Pela primeira vez a banda se apresentaria na ilha e o Aerocirco estava lançando um clipe. Aerocirco é uma banda bacana, formada por quatro rapazes boa-pinta, que não despontou em grandes centros como Rio e São Paulo, mas que é garantia de casa cheia em Santa Catarina e partes do sul. Nevilton mandou tão bem quanto em Curitiba, inclusive apresentando duas músicas inéditas ao público catarinense. O único problema era que os espectadores sabiam cantar Aerocirco, mas não Nevilton.


Nevilton estava mais animado que de costume naquela noite, e deixava transparecer o entusiasmo com um ligeiro trançar de pernas. “Não tem problema, não, cara! A gente veio aqui pra mostrar a nossa cara mesmo. Pra gente é muito legal abrir o show dos caras aqui. Depois a gente leva eles pra Umuarama. Assim é que as bandas se ajudam”, Ton é bom menino, não é desses que enchem a cara e gritam “o Bob Dylan sou eu” pelas ruas. Diferente de Lobão e eu, que mandamos ver várias cervejas durante toda a noite. Em certo momento recordo que fomos parar num carro, impossível de lembrar a marca, com uma loira e uma morena que transbordavam sorrisos e progesterona. “Faltou sorte e tempo essa noite, Ramone”, ele uivou quando levamos o fora. “O importante é não se deixar abalar”, completei.



Estávamos 860 quilômetros distantes de Umuarama e eu estava bêbado. Conseguimos pouso com Maurício, guitarrista do Aerocirco, que nos ofereceu uma casa simpática, com camas confortáveis e cerveja na geladeira. O dia seguinte reservava uma bela ressaca na minha cabeça e muita estrada pela frente. Dormir era preciso e então, com a luz do dia já a brilhar na ilha, a cena independente foi repousar.


The final

Assegurar que Curitiba e Florianópolis seria uma coisa, e Alto Piquiri e Umuarama outra, era explicar o óbvio. No primeiro show interiorano daqueles dias, Nevilton estava incumbido de abrir para a dupla sertaneja Mario Augusto e Alexandre, durante a Feira do Agricultor de Alto Piquiri. O palco era montado pela prefeitura no meio daquela que talvez seja a única avenida principal da cidade. Os comerciantes vendiam espetinhos, doces, hot dogs e mais uma infinidade de quitutes.


Muitas bandas sequer cogitariam uma apresentação naquele lugar, mas Nevilton possui espírito desbravador, inclinado para esse tipo de maluquice, e preparou um show especial para aquela noite. “Dessa vez nós vamos tocar, além de algumas músicas nossas, uns covers pra galera entrar na onda. Vai rolar Raul, The Doors, aquela do Chico Buarque e sei lá, Peter Bjorn and John”, avisou Nevilton, que foi complementado pelo baixista: “a gente tem que pensar que estamos endividados até o pescoço com essa história de gravar, produzir, mixar e lançar o CD. Tocar aqui ajuda a pagar as dívidas da banda e também há o fato de recebermos o cachê adiantado”.


A cena independente, de um modo geral, é carente de cachês. Pouco se comenta sobre isso na mídia especializada porque, na verdade, praticamente não existe uma mídia especializada. O que existe são pequenos focos de jornalistas fodidos que, por gostarem do som ou simplesmente por puro masoquismo, embrenham-se no meio dessa turma. Assim, não é difícil entender o motivo que levou o Vanguart a assinar com a Universal Music em uma época que se especula o declínio da indústria fonográfica mundial.

“A verdade é que a cena independente sonha com o contrato assinado e com a pouca estrutura que as gravadoras ainda oferecem”, falou Nevilton em nome toda a banda. “Hoje você pega um DVD desses caras sertanejos que ninguém conhece e, se for ver o orçamento utilizado na gravação, vai constatar que é maior que o orçamento utilizado por muitas bandas consideradas top de linha no nosso meio. É cruel, Ramone”, completou com o mesmo olhar de um jornalista que descobriu que o seu diploma não é legitimado pela Constituição.

Alto Piquiri representa a decadência de um estilo de música que, salvo alguns dinossauros abraçados pela grande mídia, nunca conseguiu se estabelecer e caminhar com as próprias pernas neste país. Mas, ao mesmo tempo, também representa uma possibilidade que até hoje poucos exploraram. “Quem garante, categoricamente, que o interior não gosta de rock, se o rock, até hoje, nunca se preocupou em ir até lá?”, indagou o baterista e violero do Nevilton. Quem cresceu numa cidade de pequeno e médio porte, ou mesmo em capitais com pensamento provinciano, entende o que ele está falando.

Particularmente, depois que embarquei nessa vibe com o Nevilton, eu defendo que todo grupo de rock deve se apresentar na cidadezinha. Até porque é bacana sentir-se um rockstar de vez em quando. Ou amigo de um. Quando os Neviltons se preparavam para deixar a cidade, Átila foi cercado por adolescentes e pré-adolescentes de modo que até eu, que nem bonito sou, dei autógrafos. “Cara, teve uma menina que se apresentou com dois beijinhos no rosto, e o segundo deles não foi bem no rosto”, comentei com a alma sexual da banda, Lobão, que imediatamente respondeu: “isso também aconteceu comigo. Acho que é a mesma menina”. E assim é o interior. Nevilton voltou pra Umuarama sem nenhum CD.


O Grand Finale

E chegara o grand finale: Umuarama. Na terra do grupo, de maneira intrinsecamente simbólica, rolaria o jantar de posse da nova diretoria do Harmonia Clube de Campo, um lugar cheio de piscinas onde se respeita, com certo rigor, o dia de jogar e o de não jogar sinuca. Nevilton, só ele, pra tirar uma grana por fora e garantir o conhaque dos finais de semana, toca voz e violão pelos bares da vida. Na minha noite de despedida de Umuarama, no show do Harmonia, ele abriu o seu próprio show.


Naquele momento, tudo o que tinha de ser feito estava concluído. O dia a dia e as histórias da semana estavam gravados em algum lugar entre a minha testa e a parte dos fundos da minha cabeça, onde ainda vinga um pouco de cabelo. Umuarama, Curitiba, Florianópolis, Alto Piquiri, estrada, rock e curtição barata. Nevilton, o grupo, apontou para mim um pequeno recorte do que rola nesse rock meio avulso. A sensação que fica após esses quatro shows, após as incessantes conversas com o trio e com o cotidiano absorvido por osmose, é que pude presenciar o germinar de um puta grupo de rock daquele estado chamado Paraná. Não que sejam os únicos pés-vermelhos que façam um som de qualidade por aqueles lados, há outras bandas fodidas perdidas por lá, suportando o adágio que insiste em afirmar que “depois do Blindagem, é tudo sertanejo”.

Certa vez Bukowski escreveu: “amar é como nadar contra uma correnteza de mijo com dois barris cheios de merda amarrados nas costas”. Se ele estivesse comigo nessa pequena epopeia talvez incluísse o amor pelo rock independente nessa descrição tão precisa. A correnteza, nesse caso, não é tão amarela e o barril não é de merda, mas a tarefa é tão árdua quanto. Nevilton é rock pedreiro e alucinado, merece ser ouvido e, principalmente, assistido. O independente é um puta amassa-barro, e se perder tempo olhando o gato nunca conseguirá comer o peixe. Ganha-se pouco e sempre vai ter um sujeito que, mesmo sabendo que você é músico, vai perguntar qual é a sua profissão.

fonte: http://www.revistaup.com/s_edicoes.php?ed=20&mat=20_sweet_home.php

208

Saímos de viagem na madrugada de sábado para domingo. O trio, meu pai, mais o amp do Lobão, mais um colchão para emergencias, mais varias malas e equipamentos de todos, resultado: quase não coube na camionete, tivemos que viajar com bolsas nos colos, caixas entre nós e etc. Fora a complicação espacial, tudo deu certinho, a viagem foi muito tranquila, viajamos cedinho e chegamos na hora do almoço em São Paulo. Comemos numa padaria chamada Campos Elíseos, um lanchinho muito bom! Depois disso fomos a casa da Estela, prima do Lobão, onde estamos pousando. Elá é muito querida… inclusive, os parentes do Lobão são todos heróis! Já conhecia o quão bacana é a tia Cléris, mas depois que conheci o Léo e a Estela, vi que todos são muito gente fina, prestativos, curtem morar em São Paulo, trabalham loucamente, tem amigos bacanas e adoram e apoiam as idéias de nos mudarmos para cá! Depois de descansarmos um tanto da viagem, ligamos para alguns amigos, da turma que emprestariam amps para usarmos nas gravações… os amps de guitarra foram do Gustavo Martins (Ecos Falsos) e do Capilé (Sugarkane), ambos tocavam naquele domingo, eu conseguiria pegar só no finalzinho do dia, ou ainda teriamos que esperar para pegar no outro, dependendo dos horarios que terminassem as festas… conseguimos pegar o do Capilé ainda no domingo, de madrugadinha… o Gustavo levaria o dele na segunda feira, no estudio… então fomos dormir e descansar para a grande segunda feira!
Acordamos cedo, fomos para a Vila Madalena, de acordo com o que tinhamos estudado no mapa! Deu tudo certinho, graças a Deus! Chegamos no estudio, aquele bruta susto! Equipamentos fodas demais, de assustar mesmo! hahahaha A mesa gigante, interfaces que mexiam os botões de acordo com o que rolava no computador, periféricos vários… analógicos, lendários e etc… foda! Nessa hora os frios na barriga começaram, só se ouvia comentarios de cada um: “Caramba! Você viu aquilo?” O Lobão usou seu amp Marshall Valvestate 150 duplamente microfonado e o Fer usou uma bateria Yamaha com tons de 12, 13 e 16 e muitos microfones, foi foda! Tinha até um microfone de fita ali, meu! Ultra sensivel, uma loucura! Os timbres da batera ficaram magicos! Muito acima do que vinhamos gravando até hoje (e olha que os timbres da demo já foram bastante elogiadas até agora!). Usamos o amp de guitarra em um “aquario”, batera na salona com nós três tocando e trocando olhares (ui! hahahaha), passamos algumas músicas, cada instrumento, cada timbre… o primeiro dia de estudio foi basicamente só para timbrarmos tudo, deu tudo certinho, saimos de lá super cansados e totalmente felizes com os resultados até então!

Nevilton, Nevilton, Fernando e Lobão no Estúdio da YB.

Terça feira foi dia de acordarmos cedo novamente, fomos para a Vila Madalena, gravamos algumas duas ou três músicas, saimos almoçar, voltamos e gravamos mais umas 10 até a noitinha… foi um dia que tiramos para gravar praticamente todos os instrumentais, foi foda! Extremamente cansativo! Mas foi ótimo! Ficamos muito felizes!
Na Quarta Feira, chegamos cedo, ouvimos algumas coisas, e a batera estava com um timbre bastante inferior nas primeiras duas músicas que gravamos, talvez por todas aquelas questões de pele nova nos tambores… ainda não estavam tinindo como deveriam… então regravamos as duas primeiras, eu lembro que eram “Ballet da Vida Irônica” e “Luz Demais pr’eu Dormir”. Depois disso, o Lobão refez umas duas passagens de baixo para garantir a “boniteza” toda! Após isso fomos almoçar, e voltamos para gravar os vocais!!! Força Nevilton!!! hahahahaha Eu já estava mais quebrado que arroz de terceira, tomei alguns energéticos, dei uns pulos, corri um pouco por ali, fiquei ligadão denovo! rsrsrsrs E começamos as gravações, no primeiro dia, consegui gravar 7 músicas… Voltei pra casa quase chorando! hahahahaha Comemos uma pizza num botequinho na rua de trás e eu fiquei em casa para dormir… os meninos foram beber uma cerveja… eu descansei.

a trupe na nave!

Sir Beto Machado “Bob Mac”

Quinta feira, o grande dia oficial da semana!!! Uma correria da gota serena! Chegamos no estudio de manhã, estavam rolando uns testes para um comercial de tv, já que teriamos que esperar de qualquer forma, pois tinhamos marcado as 13h no estudio, eu e o Fer também fizemos o teste, nos apresentamos e cantamos uma música para a camera! O Fer tocou um pagodão em viola e eu toquei A Mascara, em violão… uma maravilha só! hahahaha Deu a hora e começamos as gravações novamente, muita maçã e muita agua…

canta… e vê se não cansa!

Rolavam até óleo de copaíba e própolis as vezes! hahahaha Gravamos… deu 8 horas e tinhamos terminado todos os vocais e instrumentais… ainda rolou de fazer uma segunda guitarrinha para Ballet da Vida Irônica e Bolerothèque! hahahaha 9:02 terminamos oficialmente as captações todas!!! Desmontamos tudo o mais rápido possivel, saímos do estudio as 9:40… passamos em casa para trocar de roupa e partir para a segunda jornada de trabalho daquele dia: o show no aniversário do Podcast Qualquer Coisa na Neu Club! Chegamos lá exatamente as 10:40… ainda não tinha ninguém, melhor assim! Passamos o som na velocidade da luz! hahahahaha Depois foi só esperar a turma começar a chegar… foi uma noite mágica… conheci pessoalmente uma galera que só conhecia pela internet: o Dago, a Fe, o Enrico, o Paulo Terron, o José Flávio Júnior, o Max de Castro, o Pablo Miyazawa… mais uma galera de bandas que tinha visto poucas vezes na vida… o Davi (Ecos Falsos), o Guga (Zefirina Bomba), o Daniel Belleza e os Macaco Bong! Fiquei muito feliz de ver toda essa turma lá! Muito mesmo! A festa foi bacana demais… a Fe estava discotecando inicialmente, depois de “Do lado direito da rua direita” dos Originais do Samba, a gente começou nosso show… tocamos um repertorio de alguns 30, 40 minutos… a turma gostou bastante! Espalhamos um monte de demos por lá, no proximo show certeza que alem de gostar muitos já vão saber cantar algumas músicas! 😀 Terminamos o show e uma turminha de amigos ainda pediam músicas… pediam “Nas Esquinas de Umuarama”… que acabamos não tocando… mas tocamos um Ballet da Vida Irônica que fez a turma mexer os cambitos com gosto… preparando para a discotecagem do José Flávio Junior e Max de Castro que vieram logo depois!

para mais fotos, visite nosso flickR!

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Feira Central de Campo Grande, experimente o “Sobá”!

Estas últimas semanas foram muito especiais, a correria vem sendo tanta com as gravações e viagens, que até então não tive tempo de falar sobre essas coisas bacanas que vem acontecendo. No finalzinho de fevereiro nós fizemos uma viagem a Campo Grande e Cuiabá e… como é quente aqueles lados, hein! 😀 A viagem foi excelente! Como da outra vez, a turma de Campo Grande nos recebeu muito bem, são muito queridos e festeiros, os rocks por lá são animadissimos! A festa foi muito boa, as outras bandas que tocaram também fizeram muito bonito: Jennifer Magnética, Astronauta Elvis, Dimitri Pellz… gente foda da cena local! Também os novos amigos da banda Plano Próximo, de São Carlos, que fizeram um show agitado, cheio de sintetizadores loucura e levadas dançantes, lindo de se ver! A noite foi sensacional, cheia de amigos que haviamos conhecido na viagem passada, e para esta ser ainda mais especial, conhecemos a famosa “Sopa Paraguaia” feita pela mãe da Letz, o “Sobá” da feira central da cidade, e ainda visitamos e tomamos um tererê no mercado municipal, cheio de ervas, chapeus, pimentas, fumos de corda, remédios naturais e essas coisas todas!


Mercado Municipal de Campo Grande, chapeus, ervas e fumo de corda de montão!

Cuiabá também foi incrível, pena que ficamos pouco tempo dessa vez. O festival foi muito bem estruturado, banquinhas com cds, camisetas, adesivos e várias coisinhas que esperamos ter logo logo para também oferecer pelos festivais! 😀 Chegando lá sabia que encontrariamos os amigos da Macaco Bong que são envolvidões com todos os lados do Cubo por ali… mas a grande surpresa pra gente foi encontrar, assim que entramos no Clube Feminino, nossos amigos catarinas da Aerocirco, que estavam atrás do palco, pois se riam a próxima banda a se apresentar. Recém chegar no local e já encontrar amigos, já deixa a situação 70% mais confortável, com toda certeza! Quando saimos de trás do palco, foi que eu vi que quem estava tocando eram os Inimitáveis, dos amigos Dennis e Heitor Jioji (que também toca na Revoltz)… fui ali comprar uma pizza em cone e tentar usar uns “cubo card”, quando eu volto a frente do palco o Dennis fala: “Agora eu gostaria de saber uma coisa… o Nevilton está por aqui?” Eles tocaram uma composição minha, chamada “Véspera”, que provavelmente será o próximo single deles, e digo uma coisa: a versão “inimitável” ficou bacana demais!!! Fiquei orgulhosíssimo de ver música minha sendo tocada por outra banda, de tão longe, e o que é melhor, uma banda muito bacana! Depois dos Inimitáveis, veio a turma da Aerocirco, e eu tirei muitas fotos, filmei algumas coisas, o show deles é muito bom, banda extremamente ensaiada, todos excelentes instrumentistas, agitação bacana no palco e músicas boas demais, foi muito bom rever um show deles!!! Nosso show seria mais tarde… nesse meio tempo tocaram outras bandas muito bacanas, como O Garfo e Nuda… e conhecemos uma turma de outras bandas também, como o pessoal da Vandaluz, que também estavam curtindo o show de todo mundo por ali! Muito bacana! Nosso show tambem foi lindo, estar naquele palco super bem iluminado, sonzeira totalmente responsa, o público muito querido, dançou loucamente ao nosso som, posso dizer que o show foi “uma delícia”! hahahaha Muito bom mesmo! Saímos de lá totalmente empolgados, eu não conseguia dormir, mesmo estando muito cansado da longa viagem daquele dia, e também cansado só de pensar no calor e na longa viagem do próximo dia! Uma coisa eu juro, Umuarama a Cuiabá, de Uno 1.0, sem ar condicionado, é coisa pra gente forte e desapegada de vários valores materiais! hahahaha … longe demais… e da metade pra frente, você perde alguns kg suando parado! Incrível! hahahah foi demais! Esperamos não demorar pra ter outra experiência dessas! 😀


no palco do Grito Rock Cuiabá! foi uma noite linda!

Muito obrigado a Letz, Jean, Mayra, Samambaia, Capilé, Wally, Alfa, Ney, Kayapy, Ynayã, novos e velhos amigos e todos que contribuíram pra que tal viagem tenha sido tão boa!

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